Medo da violência urbana faz prática do Krav Maga crescer em Minas Gerais

 em Krav Maga

Arte de defesa pessoal ensina alunos a se proteger de ataques utilizando o corpo e a mente, de forma a controlar os sentidos para potencializar a força

Aprender a se defender dos perigos da vida é um direito –e uma necessidade– de todos, independentemente de idade, gênero ou condicionamento físico. Aliar este conhecimento a bem-estar, qualidade de vida e atividade física é ainda mais produtivo. Esta possibilidade chamou a atenção de Marcos Correa, educador físico de 40 anos, que enxergou no Krav Maga, única luta reconhecida mundialmente como arte de defesa pessoal, a oportunidade de aprender técnicas para se sentir mais protegido. Marcos foi assaltado em plena luz do dia junto com a esposa e percebeu que era necessário aprender a defender a si e à família.

“Um dia, ao chegar na casa da minha sogra, no Bairro Renascença, fui abordado por três bandidos que me renderam. ‘Limparam’ a casa e levaram carros e documentos. Neste dia decidi que buscaria uma atividade que me proporcionasse segurança”, conta.

Após um ano e meio de prática, Marcos conta que é outra pessoa. “O que me fez procurar o Krav Maga foi a busca por segurança, mas vejo que a prática trouxe mudanças em vários aspectos. Sou mais seguro para falar em público, melhorou minha autoestima. Sou mais atento, consigo me concentrar mais nas minhas atividades e hoje percebo que tenho melhor percepção de perigo, consigo antecipar situações”, destaca.

A história de Marcos é apenas uma entre a dos 1400 alunos que praticam Krav Maga em Minas Gerais, número que cresceu quase 90 vezes nos últimos 20 anos. A estatística acompanha o mapa da violência no Estado, que, somente de janeiro a julho de 2017, registrou 69.667 ocorrências de roubo, 2.266 homicídios, 2.506 assassinatos e 33 registros de extorsão mediante sequestro. Os dados são da Secretaria de Estado de Segurança Pública de Minas Gerais.

“As técnicas de Krav Maga visam impedir que o ataque atinja o alvo e, ao mesmo tempo, simplifica e aumenta a força dos movimentos do contra-ataque. Racionaliza matematicamente os movimentos de ataque e defesa, utilizando a transferência de peso e a força de explosão, o que potencializa a ação, independentemente da força física da pessoa. Além disso, o aluno aprende a controlar os cinco sentidos e a desenvolver o sexto, a capacidade de pressentir os movimentos antes de serem esboçados, percebendo o mundo a sua volta”, explica Beny Schickler, instrutor chefe de Krav Maga em Minas Gerais.

Prática de vida

O Krav Maga surgiu na década de 1940, em Israel, em um contexto de guerras e violência extrema. A partir da necessidade de sobreviver ao horror, Imi Lichtenfeld criou técnicas de luta pela vida utilizando as únicas ferramentas que tinha no momento, o corpo e a mente. No pós-guerra, o Krav Maga se tornou a filosofia de defesa adotada pelo Tzahal, serviço militar israelense, polícia e serviço secreto. No Brasil, a arte chegou na década de 1990, trazida pelo único representante da modalidade na América do Sul à época, Mestre Kobi Lichtenstein.

Somente em 1996 o Krav Maga chegou a Minas Gerais. A primeira turma de 15 alunos se multiplicou e hoje 37 academias no Estado oferecem os ensinamentos da arte, 25 delas na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O mentor das atividades da Federação Sul-Americana de Krav Maga em Minas Gerais, Rafi Green, explica os quatro princípios fundamentais da arte de defesa pessoal, que passam a fazer parte da filosofia de vida de quem pratica.

“Desenvolvemos nos alunos a coragem para enfrentar obstáculos, independentemente da dimensão deles; o equilíbrio para controlar as emoções e não permitir que o medo impeça a ação; a paciência, que reflete em uma mudança de postura em relação a si próprio e acontece gradativamente; e o respeito a si e ao próximo, mesmo que ele seja um inimigo. Tudo isso, aliado ao domínio do corpo e da força, deixa o aluno em condições de se defender em situações de extremo risco“, detalha Rafi Green.

Rafi acrescenta, ainda, que o aluno absorve as técnicas de acordo com a sua personalidade, mas é certo que a autoconfiança aumenta consideravelmente em todos os perfis. “A capacidade de ler a situação e agir antes que o contato físico seja necessário fica evidente em alunos com mais de seis meses de prática do Krav Maga. Isso é reflexo do aumento da autoconfiança e da melhora da percepção, por meio dos sentidos, trazida pela arte”, reforça.

Saúde e bem-estar

Apesar de a essência do Krav Maga estar ligada à defesa pessoal, as aulas também ajudam a quem quer perder peso e ganhar condicionamento físico a alcançar os objetivos. Em cerca de 45 minutos de treinamentos, é possível perder até 550 calorias. Mesmo com este potencial de queima calórica, a prática do Krav Maga é bastante democrática. “Não há restrições de peso, idade, gênero ou deficiência física para aprender a arte, se defender é para todos”, ressalta Beny Schickler.

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